Mentira compulsiva, um distúrbio conhecido como pseudolalia

Mentira é qualquer coisa dita com a intenção de enganar o outro, para evitar a dor (da punição) ou obter prazer.

A decisão de falar ou não mentira resulta de um julgamento estratégico e de uma avaliação ética. Assim, por exemplo, a fofoca, motivada pela inveja, é a mentira hostil que trata de prejudicar a outra pessoa e, ao mesmo tempo, de valorizar o autor, que se mostra muito bem informado. As desculpas mentirosas são tentativas de evitar as perdas decorrentes de algum ato egoísta ou irresponsável.

Há casos raros na Psiquiatria em que aparece o sinal da “pseudolalia”, a mentira automática, que é parte de um quadro maior de perturbação de avaliação da realidade e também transtorno de caráter, decorrente da imaturidade do senso ético. O adulto, neste caso, tem a ética infantil; sua avaliação é egocêntrica e sua atitude é egoísta. Não há o sentimento de respeito, de consideração pelo outro; seus desejos são sentidos como necessidades, e as necessidades dos outros são entendidos como meros desejos. Assim, o ato de mentir é sentido como lícito, desde que lhe traga vantagens, independente do mal que possa fazer ao outro.

Não se deve pensar na Psiquiatria como a ciência que trata só das grandes doenças mentais, fazendo de conta que tudo só acontece nos outros. Assim, por exemplo, as piadas sobre malucos delirantes nos divertem, mas é comum aceitar delírios menores, como as superstições – o olho gordo, o mau olhado, o bater na madeira para “isolar” o mau agouro, o medo de gato preto, a proteção com patas de coelho, as figas e ferraduras etc. Não somos pseudolálicos, é certo, mas isso não quer dizer que não mentimos!

Seria ingênuo e confortável focar a atenção apenas nesses casos raros e extremos, tão graves. É necessário, e muito mais útil, reconhecer as pequenas doenças psíquicas da pessoa comum. Caetano Veloso diz que “de perto, ninguém é normal”. Nossas vidas social, profissional e mesmo familiar são bastantes ricas de pequenos desajustes, que, embora não ganhem diagnósticos, prejudicam bastante os outros e a nós mesmos.

Toda hora se ouve mentirinhas destinadas a enganar o outro – não deu para avisar; preso no trânsito; tenho visita a um cliente externo; reunião da diretoria; crise de enxaqueca ou de sinusite ou de dor de cabeça; a bateria do celular se acabou; não deu tempo; claro que eu te amo, mas é que estou passando por uma fase difícil etc. –, que são utilizadas para continuar a receber as vantagens em um relacionamento, sem sofrer punição e perdas que seriam inevitáveis.

Também dentro de cada um de nós, nossas partes mais imaturas mentem. Nós nos iludimos com: “segunda-feira eu começo pra valer”; “os tamanhos das roupas estão cada vez menores – o 46 antigamente era muito maior”; “sim, estou parando de fumar”; “vou tomar só mais uma dose”; ‘os médicos exageram quando dizem que isto faz mal”; “está tudo sob controle, eu sei o que faço, o que como e o que bebo”; “os headhunters nunca me encontraram”; “foi falta de oportunidade”; “eu sei quais são meus problemas”; “eu tenho pavio curto”; “então, não era mesmo pra dar certo”; “uns têm sorte, outros não têm” etc.

Em uma mesma pessoa encontramos momentos de maturidade ética, alternados com episódios imorais ou amorais. Não se trata de, como acontece nas telenovelas, uma pessoa ser totalmente boa e a outra totalmente má. Todos têm bondades e maldades e o que diferencia uma pessoa da outra é a proporção em que essas características aparecem. O desenvolvimento da personalidade inclui o amadurecimento ético, preconizado por filósofos e religiosos, no “amar o próximo como a si mesmo”.

 Por Dr. Mauro Moore Madureira, psiquiatra

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