Medicamentos para a obesidade

O sonho de quem está acima do peso é emagrecer sem sacrifício. Se existisse um comprimido dotado dessa propriedade, seria o mais vendido do mundo.

Nessa área, infelizmente, a medicina tem pouco a oferecer, além de recomendar o que ninguém gosta de ouvir: diminuir o número de calorias ingeridas e praticar atividade física.

Para preencher esse vácuo, surgiram as chamadas fórmulas emagrecedoras, prescritas por médicos despreparados/inescrupulosos, vendidas na clandestinidade, e até pela internet.

Essas fórmulas são exemplos didáticos de polifarmácia. A fórmula típica contém de cinco a quinze componentes: uma substância “tipo-anfetamina” (femproporex ou dietilpropiona), benzodiazepínicos (diazepan ou clordiazepóxido), agentes tireoideanos (triiodotironina, tetraiodotironina, triac, triatec), diuréticos (furosemida, hidroclortiazida, etc.), agentes gastrointestinais (cimetidina, fenolftaleína, dimeticona, etc.), uma variedade de produtos vegetais (cáscara sagrada, cavalinha, Fucus vesiculosus e outros representantes da exuberante biodiversidade brasileira), antidepressivos (fluoxetina, sertralina), vitaminas, cloreto de potássio, propanolol e o que mais a imaginação for capaz de criar.

Se a boa prática médica recomenda cautela ao associar duas drogas, pela dificuldade em prever interações medicamentosas, como explicar essas prescrições mirabolantes?

Elas se baseiam numa lógica que os estudantes de medicina jocosamente apelidaram de “princípio da cascata”, segundo o qual sempre há de existir um remédio para combater os males provocados por outro.

Por oferecer risco de complicações que podem levar o usuário crônico à morte, essas formulações são proibidas pela Anvisa e pelos Conselhos Federais de Medicina e de Farmácia.

Isso quer dizer que a Medicina contra-indica o uso de medicamentos no tratamento da obesidade?

Não, mas estabelece critérios. Eles devem ser empregados de forma adjuvante a mudanças de estilo de vida que incluam dieta saudável e prática de atividade física, nas seguintes situações:

1)     Índice de massa corpórea (IMC = peso/altura x altura) maior do que 30;

2)     IMC maior do que 27 na presença de condições como diabetes, hipertensão arterial, síndrome metabólica, doenças cardiovasculares e outras.

Nessas circunstâncias podemos indicar os seguintes medicamentos:

1)     Femproporex e dietilpropiona: drogas que provocam liberação do neurotransmissor epinefrina em certas regiões do cérebro, reduzindo o apetite. Os estudos mostram que, a longo prazo, elas são capazes de reduzir o peso corpóreo em 3% a 4%. A pressão arterial precisa ser controlada, especialmente nos hipertensos;

2)     Sibrutamina: é inibidora da recaptação dos neurotransmissores serotonina e epinefrina. Nos estudos realizados, provoca redução média de 5% do peso corpóreo. Os principais efeitos colaterais são hipertensão e taquicardia;

3)     Orlistat: age inibindo cerca de 30% da absorção de gordura pelo intestino.  Em um dos estudos, foi capaz de diminuir o peso dos participantes em 3%; em outro, reduziu a incidência de diabetes. Os efeitos colaterais estão relacionados com a ação da gordura nas paredes do intestino grosso: flatulência, cólicas e urgência para evacuar;

4)     Rimonabant: age nos neurônios do sistema canabinóide (o mesmo em que a maconha atua), contribuindo para regular o equilíbrio energético, a ingestão de alimentos e o peso corpóreo. Nos estudos, tem demonstrado reduzir o peso em cerca de 5%. Os principais efeitos colaterais são depressão (às vezes grave), ansiedade, náuseas e diarréia.

Como dissemos, leitor, os tratamentos farmacológicos disponíveis oferecem ajuda limitada. Enquanto não conseguirmos compreender melhor a natureza das reações bioquímicas e comportamentais envolvidas nos mecanismos que levam à obesidade, a alternativa é triste: comer menos e andar mais. Exatamente o que os seres humanos mais detestam.

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