Mata-mosquitos modernos

Combater o mosquito da dengue com inseticidas é guerra perdida.

Popularmente conhecido como fumacê, a eficácia do método de espalhar nuvens de inseticida pelas ruas é comprometida, porque os moradores fecham as janelas assim que o caminhão aparece na esquina e o Aedes aegypti não é bobo, corre para esconder-se nas frestas e nos cantos das casas.

Nos últimos meses, foram descritos dois métodos novos para reduzir o impacto da dengue em países sistematicamente assolados por epidemias.

O primeiro foi desenvolvido pela equipe de Scott O’Neill da Universidade de Queensland, na Austrália. Baseados na descoberta de que a infecção pela bactéria Wolbachia pipientis torna os mosquitos resistentes ao vírus da dengue, os australianos pretendem testar se é possível disseminá-la entre os mosquitos que infestam as cidades. Com esse objetivo libertarão alguns Aedes infectados em laboratório.

Duas cidades no Estado de Queensland foram selecionadas para o primeiro estudo de campo. Ainda neste ano, deverão ser iniciados testes no Vietnã e na Tailândia.

A Wolbachia é uma bactéria ubíqua entre os insetos: pode ser encontrada em mais da metade deles, incluindo diversas espécies de mosquitos que infelizmente não incluem os transmissores de doenças humanas. Através dos ovos, as fêmeas infectadas transmitem a bactéria para todos os mosquitos-filhos. Quando uma fêmea não infectada se acasala com um macho infectado, os descendentes se tornam inviáveis.

E mais, diversos estudos recentes demonstraram que a simples infecção por Wolbachia torna o Aedes aegypti resistente ao vírus da dengue, graças à ativação do sistema imunológico do inseto e/ou porque a bactéria compete com o vírus por componentes celulares essenciais à sua sobrevivência.

Por meio desses mecanismos, a Wolbachia age como uma “vacina” que protege os mosquitos contra a aquisição da dengue.

Para surpresa dos pesquisadores, no entanto, a mesma estratégia parece protegê-los contra o vírus chikungunya, causador de doença humana, contra as filárias responsáveis pela elefantíase, enfermidade parasitária que provoca inchaço nos membros inferiores, além de inibir diversas espécies de Plasmodium, o parasita da malária.

Para o teste a ser realizado em Queensland, a equipe pretende libertar dez mosquitos infectados por semana, durante três meses, para observar como a bactéria se dissemina. O risco desse procedimento à saúde humana foi considerado “insignificante”, pela rigorosa Organização de Pesquisa Industrial e Científica da Austrália.

O segundo método gerou mais controvérsias por envolver a liberação de mosquitos geneticamente modificados, tema sujeito a debates apaixonados.

Numa entrevista coletiva realizada em Londres, em novembro último, a companhia inglesa Oxitec informou que havia realizado o primeiro estudo com Aedes aegypti transgênicos numa das ilhas Cayman, no Caribe.

O programa recebeu a autorização oficial do governo de Cayman para libertar mosquitos machos equipados com um gene dotado da propriedade de destruir seus descendentes ainda na fase larvária. Ao contrário das fêmeas, como os mosquitos machos são vegetarianos e não picam ninguém, não oferecem risco de transmitir doenças ao homem.

A primeira pesquisa de campo foi realizada no fim de 2009. Mais tarde, em maio e outubro de 2010, foram libertados 10 mosquitos geneticamente modificados para cada macho selvagem existente numa área de 16 hectares.

Quando essa área de estudo foi comparada com outra que serviu de controle, foi encontrado um número de mosquitos 80% menor.

Grupos de defesa do ambiente lamentaram a falta de discussão internacional que cercou a libertação desses machos transgênicos. O governo das ilhas Cayman diz que a população da ilha foi informada previamente e que a autorização oficial foi dada por julgar que o procedimento obedecia às regras de biossegurança do território.

Ouvido pela revista Science, Willen Takken, da Universidade Wageningen, na Holanda, disse que considera o experimento simples versão moderna da tecnologia de esterilização de insetos por meio da irradiação dos machos, técnica que tem sido empregada com muito sucesso na erradicação de pragas na agricultura, há mais de meio século.

Fonte: Drauzio Varella

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