Generosidade que faz bem à saúde

Tirar o foco da doença e presentear as pessoas durante um mês podem trazer muitos benefícios, relata americana diagnosticada com esclerose múltipla

Generosidade que faz bem à saúdeCami Walker, uma americana de 36 anos, foi diagnosticada com esclerose múltipla em 2006 e se viu mergulhada em um mundo desconhecido e doloroso, do qual pressentia não ter mais controle. Até que recebeu de uma terapeuta holística uma prescrição incomum e que mudou a sua vida.

Mesmo duvidando dos benefícios da proposta, depois de semanas com dores, insônia e sentindo-se fatigada e obcecada pela doença e seus sintomas, Cami decidiu apostar no inesperado.

Deu tão certo que ela conta a experiência no livro “29 Gifts: How a Month of Giving Can Change Your Life” (algo como “29 Presentes: Como um Mês Presenteando Pode Mudar a Sua Vida”), lançado em outubro nos Estados Unidos.

Sua história alcançou tanto sucesso pela internet, que pessoas pelo mundo já criaram um movimento chamado “29 Presentes” (www.29gifts.org), em que atestam os benefícios de presentear o próximo. Já são mais de sete mil membros em 38 países.

O tratamento

De acordo com Mbali Creazzo, sua terapeuta e conselheira espiritual, Cami sofria demasiadamente por manter somente a doença em foco no seu dia-a-dia. Então propôs que ela passasse a pensar também nas outras pessoas, presenteando-as diariamente durante um mês.

Nos 29 dias seguintes, a paciente presenteou pelo menos uma pessoa, como familiares, amigos, colegas de trabalho e até mesmo desconhecidos.

Os presentes não precisavam necessariamente ser objetos de valor. De acordo com entrevista concedida ao jornal americano New York Times, Cami explica que uma simples ligação para saber se está tudo bem com um amigo ou guardar um pedaço de bolo para o marido já podem ser considerados presentes.

A experiência não curou a sua esclerose múltipla, é claro, mas parece ter surtido efeito positivo na sua capacidade de lidar com a situação.

Ainda segundo o jornal, depois do tratamento, a paciente demonstrou ter mais mobilidade e ser menos dependente de medicamentos contra dor. As reclamações que a levavam rotineiramente ao atendimento de emergência pararam e exames mostram que a doença parou de progredir.

Segundo Cami, a maioria dos presentes envolve tempo, dedicação emocional e pequenos atos de generosidade. Até hoje, sempre após um ciclo de 29 dias, elas inicia um novo.

Quanto aos 29 dias, nem mesmo Mbali Creazzo sabe o porquê desse número ao invés de 30 ou 31 dias. Mas acreditam que pode estar relacionado com os ciclos lunares, que são de 29.5 dias.

Tirar o foco da doença

Para um bom resultado nos tratamentos, é fundamental que o paciente perceba que continua útil e produtivo. E isso também aumenta a sua auto-estima

De acordo com a psicóloga Maria Letícia Barsotti, do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), ao serem diagnosticados com algumas doenças graves, muitos pacientes passam a sentir-se inúteis diante da vida e do próprio tratamento.

“A experiência dessa americana é muito interessante porque, na medida em que os pacientes passam a se preocupar com as outras pessoas e a fazerem o bem para o próximo, além de tirar o foco da doença, percebem que continuam tendo condições de fazer algo por alguém”, explica.

“Para um bom resultado nos tratamentos, é fundamental que o paciente perceba que continua útil e produtivo. E isso também aumenta a sua auto-estima”, afirma.

Segundo a psicóloga, o pensar no outro também traz a sensação e a esperança de uma vida melhor.

“Percebemos que é muito diferente quando conseguem enfrentar o tratamento com esperança e quando procuram formas de encontrar bem-estar. Os resultados geralmente são mais positivos, porque o próprio paciente buscou enfrentar as dificuldades de forma menos angustiante e sofrida”, explica.

Para o New York Times, Cami Walker deu o seguinte depoimento: “Minha primeira reação foi achar que era uma ideia maluca. Mas depois me deu uma visão mais positiva da vida. É como dar um passo para fora da sua história por tempo suficiente para fazer uma conexão com alguém”.

Ciência

De acordo com a matéria do NYT, a ciência tem amparado a ideia. Uma série de estudos documenta efeitos similares aos da experiência de Cami.

O ideal é mesmo tentar seguir a vida de forma agradável para que todo o processo consiga ser o menos doloroso e o mais positivo possível

Em um deles, publicado em 2002 pela Boston College, pesquisadores descobriram que pacientes com dores crônicas sentem-se melhor quando conversam e ajudam outros pacientes com dores. Passam a sentir menos depressão, dores agudas e desabilidade.

Outro estudo, da Buck Institute for Age Research, da Califórnia, mostra os benefícios do voluntariado. De acordo com os pesquisadores, idosos que realizaram trabalho voluntário por mais de quatro horas por semana tinham 44% menos chances de morrer durante o período do estudo.

E embora a preocupação em beneficiar o próximo ainda não tenha uma clara relação com mudanças nas saúdes mental e física, acredita-se que o altruísmo pode ser um antídoto para o estresse. Um estudo realizado com portadores de HIV e publicado em 2008 pela Universidade de Miami mostra que os pacientes com fortes características altruísticas têm menores taxas de hormônios do estresse.

Para a psicóloga do HIAE , quando os pacientes sentem que estão sendo pró-ativos com as outras pessoas, passam a ser mais ativos durante o processo do tratamento.

“É sempre importante procurar formas de bem-estar nos momentos mais duros, porque é preciso tirar o foco da doença, mas sem negá-la e sem atrapalhar o tratamento”, afirma. “O ideal é mesmo tentar seguir a vida de forma agradável para que todo o processo consiga ser o menos doloroso e o mais positivo possível”, conclui.

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