ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

No início do século 20, na Europa desenvolvida, a expectativa de vida ao nascer andava ao redor dos 40 anos. Naquele tempo, homem ou mulher que atingissem essa idade provavelmente estariam se aproximando do final de suas vidas. Hoje, aos 40 anos, eles são considerados jovens.

A expectativa de vida praticamente dobrou nesses países no decorrer do século 20, mas trouxe consigo uma série de problemas socioeconômicos. São muitos os que chegam aos 70, 80 anos em condições físicas, às vezes, muito boas, mas aposentados desde os 50 anos, obrigando a Previdência Social a manter o pagamento dos benefícios por um período que não havia sido previsto.

Morrer mais tarde criou também dificuldades no relacionamento familiar, especialmente no que se refere a como lidar com parentes de idade mais avançada. Atualmente, difícil a família que não tem alguém com 70, 80 anos em condições físicas e mentais nem sempre íntegras.

No entanto, não são poucas as pessoas que envelhecem e chegam aos 80 em plena atividade sem passar pelo processo de decrepitude física e intelectual que tanto nos assusta.

O QUE É ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

DrauzioÉ possível existir um envelhecimento saudável?

Wilson Jacob Filho – Não só é possível, como hoje é nosso objetivo encontrar os caminhos que levam ao envelhecimento saudável. Na verdade, ele é produto de várias ações que culminam com a expectativa de vida alongada, mas em condições de exercer todos os papéis que o indivíduo exercia ou gostaria de exercer dentro da sociedade. O envelhecimento saudável impõe não só boa condição física e mental, como também a inclusão social que permite desempenhar tais funções.

Drauzio – O conceito de velhice variou com o tempo. Machado de Assis, por exemplo, em obras escritas há pouco mais de cem anos, referia-se ao velho de 50 anos, quando atualmente homens de 60 praticam “windsurf”. Existe um conceito médico que caracteriza a velhice?

Wilson Jacob Filho – O conceito etário, ou seja, baseado exclusivamente na idade cronológica, é no mínimo temporário e vai se modificando com o passar do tempo. Tanto é que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece não só o idoso, mas criou uma nova terminologia, “muito idoso” ou “very old”, para designar o indivíduo que chega aos 80 ou 85 anos de idade.

Drauzio – Segundo os critérios estabelecidos pela OMS, a partir de que idade a pessoa é considerada idosa?

Wilson Jacob Filho– Nos países desenvolvidos, a partir dos 65 anos e, nos países em desenvolvimento, a partir dos 60 anos. No Brasil, portanto, é classificado como idoso quem completa 60 anos de vida. Como se trata de um critério arbitrário, buscamos determinar uma condição funcional através da qual seja possível identificar as possibilidades de cada pessoa em cada faixa etária, a fim de entender se são normais ou estão agravadas por algum processo patológico. Delimitar essa condição é fundamental para que se possa afastar de vez o fantasma de que o idoso tem obrigatoriamente limitações funcionais exuberantes e que aos jovens seja imputada uma capacidade funcional absolutamente notável. Esses extremos próprios da visão popular são maléficos e prejudiciais para os dois segmentos etários.

ENVELHECIMENTO ATIVO

Drauzio – Há 50 anos, o paradigma da medicina era aconselhar as pessoas de mais idade a fazerem repouso. Era clássica a imagem do velho de pijama, sentado na poltrona da sala, sem fazer qualquer esforço, sem andar, sem ir sequer à padaria. Esse paradigma foi totalmente rechaçado pela medicina atual…

Wilson Jacob Filho – Não só rechaçado, como também contrariado. Hoje, entendemos que o envelhecimento ativo conduz ao envelhecimento saudável. Na verdade, essas expressões são quase sinônimas quando empregadas na literatura e nas recomendações cotidianas. O envelhecimento ativo prioriza a atividade física não só após o indivíduo ter atingido faixa de idade mais avançada, mas durante todo o processo. Não se admite mais um período de sedentarismo em que a atividade física seja interrompida por volta dos 20, 25 anos, quando ele se torna um profissional atuante e só seja retomada mais tarde, como forma de tratamento porque já adoeceu. Além disso, é importante manter atividade social, profissional, afetiva e amorosa em todos os sentidos. O idoso precisa compreender que só pertencerá à comunidade se agir como ela age. Caso contrário, será dela excluído naturalmente.

BENEFÍCIOS DA ATIVIDADE FÍSICA

Drauzio – Que tipo de benefício traz manter a atividade física no decorrer de toda a vida e especialmente depois dos 60 anos?

Wilson Jacob Filho –  A atividade física faz com que o organismo adapte-se a um patamar maior de exigência e de capacidade de resposta. Se olharmos o envelhecimento como  processo contínuo que vai da fase de desenvolvimento máximo até o fim da vida, veremos que ele se caracteriza pela limitação, pela perda progressiva da capacidade de adaptar-se, de responder a uma sobrecarga, seja do cotidiano – correr, subir uma escada, carregar um peso – seja uma sobrecarga artificial ou incomum, como uma doença ou condições climáticas excepcionais. Por isso, a gripe preocupa mais nos idosos do que nos jovens e uma onda de calor mata mais os velhos do que os moços. Na medida em que a atividade física faz com que a pessoa, apesar da idade mais avançada, consiga preservar a capacidade de adaptação funcional, seu organismo terá respostas mais próximas das encontradas nos indivíduos de menos idade, isto é, preserva-se a capacidade de dar resposta à demanda funcional.

EXERCÍCIO AERÓBICO + EXERCÍCIO DE FORÇA

Drauzio – Vamos considerar três décadas distintas: dos 60 aos 70, dos 70 aos 80 e acima dos 80 anos. Qual o tipo de atividade física indicada para cada uma dessas faixas etárias?

Wilson Jacob Filho – Sua pergunta mostra a evolução do conhecimento sobre esse período da vida. Houve época em que a atividade física ideal para o idoso era nenhuma. Ele deveria ficar em repouso para preservar-se dos eventuais riscos que os exercícios pudessem trazer.

Drauzio – E para morrer do coração mais depressa…

Wilson Jacob Filho – Do coração, de tédio ou de outra forma de doença agravada pela imobilidade. Depois, imaginou-se que o indivíduo deveria fazer exercícios que preservassem sua capacidade cardiocirculatória. Nos anos 1970, vivemos a onda dos exercícios aeróbios como os grandes responsáveis pela prevenção de doenças cardiovasculares. Já os anos 1990 e no início do século 21 demostraram que são os exercícios de força que fazem a diferença, quando se fala na capacidade funcional do idoso e na prevenção de boa parte das doenças comuns nessa faixa etária. Recentemente, numa entrevista, o próprio Kenneth Cooper, grande defensor do exercício aeróbio como única forma de atividade física saudável, disse que intercala exercícios aeróbios com exercícios de força (aqueles feitos contra uma resistência) para elevar não só massa, mas a qualidade muscular, ou seja, a capacidade de o indivíduo utilizar seus músculos quando necessário.

ESCOLHA DOS EXERCÍCIOS

Drauzio – Uma coisa é dizer – você precisa correr e levantar peso – para um homem de 60 anos, magro e em boas condições físicas e outra bem diferente fazer a mesma recomendação para quem tem 80 anos e está debilitado. Como você orienta seus pacientes?

Wilson Jacob Filho – Ou para uma senhora que nunca praticou uma atividade física sistemática, foi dona de casa e exclusivamente se ateve às tarefas domésticas. A primeira coisa que faço é mostrar para essas pessoas que existem atividades, que não o uso de medicamentos, responsáveis por sua saúde. Segundo passo: uma vez que a pessoa esteja motivada para experimentar uma atividade física como forma de promoção de saúde, é preciso explicar-lhe os tipos de exercícios que promoverão o benefício almejado.

Queixa muito comum do indivíduo que envelhece é a restrição para realizar determinadas ações. Subir um degrau, o degrau do ônibus, por exemplo, é um desafio ergonômico, tanto do ponto de vista de amplitude de movimentos quanto de força de impulsão. É fácil demonstrar, mesmo no consultório, que para realizar esse ato corriqueiro fazem falta força de contração muscular e amplitude articular. A pessoa que não consegue abotoar um botão nas costas, levantar os braços acima da cabeça, ou andar alguns metros, não tem simplesmente idade mais avançada. O fator idade está agravado pela falta de competência e de treinamento muscular. Os exercícios físicos promovem benefícios em pouco tempo. Algumas semanas depois de ter começado a praticá-los contra uma resistência de três quilos, por exemplo, o indivíduo percebe que já dobrou a carga. Isso lhe dá a convicção de que vale a pena continuar insistindo.

Drauzio
– Na verdade, o músculo continua respondendo com hipertrofia independentemente da idade que a pessoa tenha.

Wilson Jacob Filho – Continua respondendo a vida toda. Existem evidências científicas das mais variadas para mostrar que o músculo do idoso, quando submetido a treinamento organizado, responde de forma semelhante ao do jovem. Levando em conta o patamar geralmente mais baixo em que se iniciam os exercícios, tanto do ponto de vista da função medida com o desempenho, quanto do ponto de vista histológico, pode-se dizer que o músculo do mais velho responde da mesma maneira que o do jovem. Isso não quer dizer que o idoso, que treina, ficará jovem outra vez, mas que terá um acréscimo de força e competência muscular exatamente igual ao que o jovem sedentário teria começando e mantendo o treinamento durante o mesmo período. As curvas de ascensão são absolutamente idênticas e, em algumas semanas de treinamento, o idoso poderá adquirir condições musculares ou funcionais muito superiores ao do jovem que não participou do experimento.

CONTROLE DO REUMATISMO

Drauzio – Qual o papel do exercício físico na prevenção das doenças reumatológicas, um dos problemas sérios que enfrentam as pessoas de idade avançada, pois muitas delas não conseguem sequer abotoar a própria camisa e acabam dependentes dos outros?

Wilson  Jacob Filho – Um dos motivos de queixa mais frequente nos idosos são as limitações articulares associadas à dor nas articulações, que se confundem e são conhecidas popularmente como reumatismo. Em geral, o reumatismo no idoso corresponde às doenças osteoartrose e osteoartrite, responsáveis pelas dores nos joelhos, quadril, tornozelos, mãos, ombros, costas e na coluna cervical.

O reumatismo tem como característica a degeneração, a perda da mobilidade articular sem que haja um processo inflamatório propriamente dito, razão pela qual o uso indiscriminado de medicamentos anti-inflamatórios pode prejudicar em vez de ajudar. Se por um lado trazem alívio imediato, por outro provocam efeitos adversos muito mais graves do que a própria doença.

Pergunta-se, então, o que o exercício físico faz em termos de melhora dos sintomas. Primeiro, na quase totalidade dos casos, quando realizado na juventude ou na idade adulta, impede a instalação de vícios posturais ou de uso que levarão ao agravamento da doença no futuro. Segundo, aumenta a competência e o vigor muscular, o trofismo muscular, o que impede a manifestação da dor, embora a doença tenha se estabelecido em determinada articulação. Em outras palavras, todos os indivíduos que sentem dores localizadas, quando fazem exercícios que promovem crescimento da massa muscular ao redor da articulação comprometida, desenvolvem uma estabilidade nessa articulação que lhes permite usá-la sem dor. Portanto, a terapêutica pelo exercício, seja pela fisioterapia, seja pela atividade física depois que a dor passou, é benéfica tanto para tratamento como para prevenção de dores futuras.

PRESERVAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO

Drauzio O problema mais grave do envelhecimento talvez seja a deterioração do sistema nervoso central, a deterioração dos processos cognitivos. Você acha que, dependendo do número de anos que vivamos, todos vamos chegar a uma fase em que perderemos o contato com o mundo que nos cerca?

Wilson Jacob Filho – Acho que não. Acho que essa situação resulta de uma doença como qualquer outra que pode acometer os indivíduos com idade mais avançada, uma vez que raramente se manifesta antes dos 60 anos. Antigamente era conhecida como esclerose cerebral – Ah, fulano está esclerosado -, mas hoje existe o consenso de denominar de demência essa perda da capacidade de raciocínio advinda de uma doença (no nosso meio, é a doença de Alzheimer). Infelizmente, ainda não conhecemos exatamente os mecanismos pelos quais se desenvolve. O fato de existir um caso na família não significa que todos vão ter o mesmo destino. Casos familiares de Alzheimer são bastante raros. Se desconhecemos as causas exatas dessa enfermidade, sabemos que existem fatores de proteção e fatores de agressão. Então, respondendo a sua pergunta. Nem todas as pessoas que envelhecem terão esse tipo de acometimento. A maioria chegará ao limite da vida gozando de plena consciência e equilíbrio mental. Hoje sabemos que, quanto mais desenvolvida foi a atividade mental e intelectual, não necessariamente a escolaridade, quanto mais o indivíduo usou seu cérebro, quanto mais exercícios mentais fez, menor a probabilidade de desenvolver demência. E, se desenvolver, será postergado o início da doença. Portanto, a lei de uso e desuso também funciona nesse aspecto. Por outro lado, doenças sistêmicas que acometem o organismo como um todo, são agravantes das doenças mentais. Diabetes e hipertensão mal controlados, alcoolismo, tabagismo e, especialmente, as doenças vasculares cerebrais são fatores agressores ou de risco para doenças mentais. Portanto, o caminho a seguir para evitar que nos tornemos pessoas mentalmente limitadas no futuro é cuidar da saúde continuamente, evitar que doenças crônicas permaneçam sem controle e, acima de tudo, dar ao cérebro razões e motivos para estar constantemente funcionando, mesmo depois do término das atividades profissionais. Aquele senhor que almejava vestir o pijama e ficar em casa depois da aposentadoria, ou a senhora cuja grande atividade mental é o cotidiano da cozinha ou uma sessão de tricô no fim da tarde estão permitindo que regrida a capacidade cerebral de ação entre os neurônios. Novas tarefas, novas vivências, novos projetos são sempre bem-vindos, quando se trata de preservar a atividade cerebral.

Drauzio – Você poderia dar um exemplo?

Wilson  Jacob Filho– A Universidade da Terceira Idade é um grande exemplo. A maioria da nossa população com mais de 60 anos jamais teve a chance de frequentar uma universidade, mas elas estão aí, assim como estão os Grupos de Terceira Idade e os Centros de Convivência. Nesses locais, preparados para atendê-lo, o indivíduo exercerá funções que provavelmente nunca teve oportunidade de fazê-lo. Muitas pessoas procuram a Universidade da Terceira Idade para serem alfabetizadas. Outras, para fazer o curso de Geografia ou História da Arte com o qual sempre sonharam, ou uma atividade lúdica, ou uma atividade profissionalizante. Todas saem de lá com duas certezas adquiridas. Primeira: percebem que podem aprender. Aquilo que aparentava ser um período de decadência em suas vidas, na verdade não é. Existe a possibilidade de ascendência, mesmo que não tenha acontecido antes. Segunda: passam a ver o universo de maneira diferente. O ângulo de visão que era fechado abre-se para um mundo novo. Todas as formaturas de alunos da terceira idade têm mostrado esse tipo de perspectiva. O indivíduo olha para um futuro por um ângulo aberto, de uma maneira absolutamente inusitada em sua vida.

PROBLEMAS DE MEMÓRIA

Drauzio – É comum encontrar homens e mulheres de 40 anos queixando-se da memória que falha. Isso é real ou uma impressão subjetiva? A memória tende a desaparecer com a idade?

Wilson Jacob Filho– Antes de dizer que ela vai se modificando com a idade, é preciso deixar claro que existem várias memórias: a de longa duração, a memória imediata (eu me lembro da pergunta que você acabou de fazer para dar a resposta), a memória recente (lembro hoje a recomendação que me foi feita ontem), a memória do passado, da infância. Em geral, a que mais apresenta comprometimento com o passar da idade, independentemente de qualquer doença, é a memória para fatos imediatos. O fenômeno da demência compromete a memória, mas é uma doença que pode ser diagnosticada e tratada. O indivíduo que envelhece sem doença mental, como eu disse a grande maioria, percebe as alterações da memória. Na fase de adulto jovem, elas estão associadas mais a um déficit de atenção. O próprio reclamante afirma que para determinados fins sua memória é ótima, mas que acaba esquecendo coisas menos importantes. É um problema seletivo. Quando fazemos testes de memória nos idosos, comparando-os com os jovens, percebemos que os idosos de boa memória usam estratégias mneumônicas muito interessantes. O mais óbvio é que anotam os compromissos daquele dia: contas a pagar, compras a fazer, etc. É muito comum também estabelecerem relações que facilitam guardar determinados eventos. Por exemplo, se conhecem uma pessoa chamada Wilson, relacionam esse nome com o de um tio-avô que tinha um nome parecido e não se esquecem mais dele. O jovem, por acreditar que sua memória é infalível, não usa essas regras mneumônicas e se esquece do que deveria fazer. Depois, reclama que está ficando velho, o que é absolutamente inverídico.

Drauzio – Existem exercícios para estimular a memória?

Wilson Jacob Filho – Existem hoje o que chamamos de clínicas de memória, onde o indivíduo é reestimulado a prestar atenção nos detalhes. O detalhe é um fator mneumônico que leva a informação a possuir uma rede de busca ampliada. Essas pequenas oficinas de memória como as que existem no Hospital das Clínicas, por exemplo, permitem ao indivíduo descobrir formas de guardar os elementos de seu cotidiano, evitando a perda de memória e o constrangimento que isso traz.

Drauzio – Essa perda de memória que vem com a idade não pode ser atribuída ao acúmulo de informações armazenadas no cérebro aos 50 anos, uma vez que aos 20 o acervo era bem menor?

Wilson Jacob Filho – Sem dúvida nenhuma, o armazenamento das informações é cumulativo. Curiosamente, as adquiridas no passado são mais preservadas do que as do cotidiano, o que confirma sua ideia. Como há menos espaço, a memória precisa ser seletiva. Por isso, a nova informação só passa para seu patrimônio se for realmente muito importante. Caso contrário, ou terá uso imediato ou será apagada.

TERAPIAS CONTRA O ENVELHECIMENTO

Drauzio – Qual é sua opinião sobre os tratamentos para retardar o envelhecimento.

Wilson Jacob Filho – Todos os tratamentos conhecidos até hoje carecem de justificativa científica. Não existe até o momento nenhuma terapia à base de remédios ou de dietas capaz de promover o retardo ou a regressão do envelhecimento. A única coisa que se conhece são os mecanismos que postergam as decrepitudes, as limitações, e que favorecem o envelhecimento saudável.

Drauzio – Que conselhos você daria para as pessoas que estão passando dos 60 anos?

Wilson Jacob Filho– Antes de mais nada, essas pessoas devem ter certeza de que vão viver muito. Nunca na história do ser humano houve a expectativa de se viver mais de 60 anos como há agora. Depois, elas devem planejar como querem viver esse tempo. Para tanto, é sempre útil ouvir a opinião de profissionais especialistas no assunto. Por fim, é fundamental querer viver bem todos os anos que têm pela frente e não aceitar de forma passiva os acontecimentos. A chave do sucesso está em participar ativamente do processo de envelhecimento.

Até bem pouco tempo, envelhecimento era sinônimo de doença. Se a pessoa tinha tido a chance de chegar aos 70 anos, dali em diante, manter-se vivo, quaisquer que fossem as condições, era considerado lucro. Um argumento preconceituoso preconizava que, nessa idade, todos deveriam conformar-se com a deterioração da qualidade de vida e o mau funcionamento do organismo.

Esses conceitos estão absolutamente ultrapassados. Não se discute mais a possibilidade de gozar vida saudável mesmo nas idades mais avançadas. Para tanto, alguns cuidados devem ser incorporados ainda na infância, para que determinados hábitos não interfiram negativamente no processo de envelhecimento.
Respeitados esses princípios, envelhecer pode representar uma conquista e não um castigo. Na importa a idade, vale a pena mudar comportamentos que promovam viver com mais saúde e disposição.

ENVELHECER COM SAÚDE

Drauzio – A maioria das pessoas associa envelhecimento à doença, uma espécie de tributo que devemos pagar pelo direito de ficarmos velhos. Tem algum fundamento essa ideia?

Wilson Jacob Fº – Sem sombra de dúvida, o aumento da expectativa de vida fez crescer o risco de surgirem-se doenças, em geral, ligadas ao processo de envelhecimento. Moléstias que costumam aparecer depois da quinta década de vida, aparecem com mais frequência agora, porque as pessoas vivem mais. No passado, a incidência era menor, simplesmente porque elas morriam antes de completar 50 anos.

No entanto, não se pode admitir que envelhecer signifique obrigatoriamente ficar doente. É preciso deixar claro que ter uma doença manifesta, o que evidentemente é um problema, não é sinônimo obrigatório de comprometimento funcional. Hoje, existe a possibilidade de tratar essa doença adequadamente, pois contamos com recursos para evitar que ela se transforme em causa de prejuízo funcional. Exemplo dos mais gritantes é o dos diabéticos. Bem cuidado, o portador de diabetes evolui com a mesma qualidade de vida e de ação independente que as pessoas sem a doença.

Do ponto de vista pessoal e social, o problema é o diabético mal cuidado e o mesmo se pode dizer dos hipertensos, dos portadores de osteoartrose ou de qualquer outra enfermidade crônica que tenha se manifestado numa fase anterior àquela que o indivíduo está vivendo. Todas essas moléstias, devidamente tratadas, não representarão empecilho para o envelhecimento saudável, na verdade entendido como uma condição funcional independente de existirem ou não doenças.

Drauzio – Somos péssimos planejadores. Esse exercício não foi importante para a seleção da espécie. Planejamos os momentos imediatos, o que vamos fazer à tarde, no dia seguinte, no final de semana. Se o planejamento para o próximo mês já é um pouco nebuloso, imagine para dali a vinte, trinta anos. Por isso, talvez, as pessoas continuem acumulando peso, comendo demais, levando vida sedentária, sem tomar consciência de que estão entrando num processo que vai acarretar danos graves à sua saúde nas fases mais avançadas da vida. Diante disso, seria exagero dizer que os tributos que pagamos na velhice variam de acordo com os investimentos em saúde que fizemos nos anos que a precederam?

Wilson Jacob Fº – Esse pagamento é real, quando a pessoa contraiu o débito na fase intermediária da vida. Isso é inexorável. Todo indivíduo que viveu um período descompromissado com o futuro, provavelmente, enfrentará uma condição pior de saúde na velhice. Hoje, esses cuidados preventivos devem começar ndem-se inclusive à infância. Nos anos 1950 e 1960, eram considerados saudáveis os bebês obesos. Foi constatado depois que, quanto maior a obesidade infantil, maior a possibilidade de desenvolver doença aterosclerótica na fase adulta e de envelhecimento. Resultado: mudamos o conceito de bebê saudável. O mesmo vai acontecer com a osteoporose e a saúde mental.
Atualmente, sabemos que o envelhecimento é gerúndio, ou seja, faz parte de um processo em curso que começa com o nascimento e termina com a morte. Cada passo é a raiz de uma consequência futura, que tanto pode ser destrutiva quanto protetora.

MUDANÇA DE HÁBITOS: SEMPRE É TEMPO!

Drauzio – Vamos pegar essa questão pelo avesso. Encontro com frequência pessoas que dizem – “Ah, fumei a vida inteira, estou com 70 anos, parar agora é besteira”. Insisto que vale sempre a pena e aqueles que conseguem deixar de fumar realmente notam uma diferença muito grande. Isso que vale para o cigarro, vale para todas as doenças? A pessoa que adotou um comportamento nutricional errado e chegou aos 70 anos obesa, se mudar os hábitos alimentares, pode melhorar a qualidade de vida?

Wilson Jacob Fº – Pode, e muito. Infelizmente, em parte por comodismo (essa é uma justificativa para não enfrentar a nova realidade), em parte por desconhecimento mesmo, as pessoas não se conscientizam dos benefícios que a mudança de certos hábitos pode trazer para a qualidade de vida.
Estudos epidemiológicos e científicos, cada vez mais frequentes, provam isso. Até pouco tempo, o idoso era excluído desses estudos, porque representava uma população minoritária, de menor interesse, portanto. Hoje não é mais assim. Estamos envelhecendo e todos queremos envelhecer com saúde. Essa nova realidade estimulou a pesquisa e não é exagero dizer que, atualmente, sabemos mais sobre envelhecimento do que permitiu o conhecimento humano acumulado durante séculos.

Está claro que a mudança de hábitos e mesmo de condições físicas revela melhora da condição funcional em curtíssimo tempo. Existem evidências nítidas de que, um ano após o indivíduo de 70 anos ter parado de fumar, sua condição funcional é superior à do que continuou fumando. E digo maismais: oito semanas de interrupção do tabagismo para a pessoa que vai ser operada cria a possibilidade de complicações operatórias muito menores do que as enfrentadas por alguém que continuou fumando até a véspera da cirurgia. Ou seja, fumante contumaz que consiga interromper o tabagismo nas oito semanas que antecedem a cirurgia, terá condições pré, intra e pós-operatórias muito melhores do que o paciente que continuou fumando.

Esse é apenas um exemplo de que vale a pena modificar certos hábitos mesmo aos 70 ou 80 anos. Prática de exercícios, cuidados nutricionais, hábitos alimentares e o uso do próprio cérebro, que frequentemente ficou subdimensionado ou sub-utilizado durante longo período, são outros exemplos de que, mesmo em fases mais avançadas da vida, assumir uma nova condição leva a benefícios, senão idênticos aos de quem a adotou em fases mais precoces, pelo menos muito melhores, se considerada a curva de perda que ocorreria se nenhuma atitude fosse tomada.

PARADOXO DE SAÚDE

Drauzio Vamos admitir o exemplo mais ou menos extremo, porém frequente, da pessoa que chega aos 70 anos diabética, hipertensa e que já teve um infarto do miocárdio. Você acha possível essa pessoa ainda ter saúde?

Wilson Jacob Fº – Costumo usar uma frase paradoxal, mas que reflete a realidade. Algumas pessoas precisam ficar doentes para ter saúde. Precisam adoecer para perceberem que são vulneráveis. Não é raro ouvi-las confessar que melhoraram muito de saúde depois do infarto ou do diabetes.
Você se referiu, com propriedade, ao fato de que somos maus programadores, em especial quando se trata da nossa saúde. Apesar de muitos serem capazes de programar a aposentadoria ou a revisão de carro exigida pela montadora, por exemplo, a maioria se esquece da saúde. Acho que para isso existe uma explicação. Só agora estamos percebendo que o único jeito de não envelhecer é morrer cedo e que o envelhecimento poderá ser gratificante para os que conseguirem conduzir bem o processo. Realidade temida, odiada ou não pensada no passado, porque era improvável ou temerária, hoje se apresenta sob perspectiva mais otimista e, portanto, faz sentido programá-la.

Além disso, já está estabelecido como a pessoa deve proceder e quais são os mecanismos para driblar as doenças, mesmo que exista predisposição genética para desenvolvê-las. É o caso de quem descende, por exemplo, de pais diabéticos. Esses têm alta probabilidade de manifestar a doença na quarta ou quinta década de vida, fase em que se verifica o pico de aparecimento da enfermidade. No entanto, se estiverem conscientes de que adotar previamente uma dieta nutricional que impeça o ganho de peso, um comportamento que favoreça a prática de atividade física e uma organização que permita distribuir durante o dia o número de calorias ingeridas, é provável que estejam postergando o início da doença e reduzindo o período de complicações, chamado de compressão de morbidade.

De acordo com uma teoria que existe a respeito atualmente, já que ainda não se consegue modificar o perfil genético dos indivíduos,  tomar tais cuidados precocemente evita que doenças, como o diabetes, por exemplo, se manifestem (exatamente o que se deseja) ou ajuda a retardar seu aparecimento. Enquanto não é  possível interferir nos genes, queremos que as pessoas não adoeçam e, se adoecerem, que a enfermidade seja controlada para que possam participar do universo social, como se nada lhes tivesse  acontecido.

“DOENÇA É BOM PARA A SAÚDE”.

Drauzio – Tive um paciente, um farmacêutico do interior, que sofria de uma doença inflamatória no cólon há muitos anos. Isso o obrigava a levar vida regrada, a tomar cuidado com o que comia porque certos alimentos provocavam cólicas. Magrinho, chegou aos oitenta e poucos anos em excelente condição física. E ele dizia: “Doutor, uma doencinha é bom para a saúde, porque cuidando e cuidando da doença, a pessoa acaba levando vida saudável”. Sempre achei que as palavras desse senhor tinham um fundo de verdade.

Wilson Jacob Fº – Essa atenção e reconhecida vulnerabilidade à doença, que a maioria dos jovens e adultos desconhece porque acha que certas coisas só acontecem com os outros, essa preocupação com a saúde faz com que o indivíduo acabe criticando seu comportamento e recorrendo aos serviços de saúde.
Existe aí um outro paradoxo. Os profissionais e as instituições de saúde estão mais habilitados para cuidar de doenças do que da saúde. Percebemos isso em nosso cotidiano. Encontra mais dificuldade quem quer continuar saudável do que quem está doente. O sistema é dirigido para valorizar a doença, para nós mero acidente a ser corrigido dentro de um programa de saúde funcional que o indivíduo tem e desenvolve durante toda sua vida.

PERDA DOS MECANISMOS COGNITIVOS

Drauzio – Uma das coisas mais tristes do envelhecimento é a perda dos mecanismos cognitivos, é a perda do contato com o ambiente. Existe alguma coisa que se possa fazer ou a velhice é inapelavelmente ligada à deterioração neurológica?

Wilson Jacob Fº – Excelente sua pergunta, porque nos dá a oportunidade de desmistificar uma série de percepções sociais infundadas. Respeitando a seguinte lei – quem usa mais, tem mais elementos disponíveis em determinado momento -, a maioria das pessoas que viver muito, poderá contar com raciocínio adequado para a aquisição de conhecimento e para realizar o que tenha vontade.

Uma parcela da população, porém, adquire doenças que comprometem o cérebro, sejam as degenerativas como é a doença de Alzheimer, sejam as doenças dependentes da circulação como as cerebrovasculares. Quando o cérebro se deteriora, não é correto nem ético deixar de fazer o diagnóstico, porque existem tratamentos capazes de pelo menos diminuir os sintomas e estender o período de boa evolução funcional.

Excetuando as doenças cerebrais específicas, existem outras razões que levam o indivíduo a utilizar menos o cérebro ou que contribuem para ele entrar em prejuízo funcional. Há um estudo famoso realizado com freiras que passaram a vida num convento, obedecendo a uma rotina de vida bastante semelhante. O objetivo era identificar comportamentos que explicassem por que algumas dessas mulheres tinham desenvolvido a doença de Alzheimer e outras não. Vários fatores foram eliminados visto que não distinguiam um grupo do outro. Quando se analisou, porém, a monografia que essas jovens aos 20 anos escreviam ao entrar no convento, verificou-se que tiveram maior prevalência da doença de Alzheimer aquelas que redigiam de forma sistematizada, com frases curtas e limitando-se a passar a informação exigida de maneira precisa, porém lacônica. Já as que utilizavam recursos de comparação, cujo texto era mais florido, mais rico em variações de estilo, tiveram menor prevalência da doença. Evidentemente, isso não que dizer que o jeito de escrever determine quem vai ou não ficar doente. Queremos mostrar que 50 ou 60 anos antes de a doença instalar-se, já existe um perfil de comportamento virado para a abertura e diversificação do raciocínio que favorece o desenvolvimento cerebral. Portanto, o indivíduo que passa longo período da vida dedicado a atividades inespecíficas não estimula nem desenvolve do mesmo modo seu cérebro.

Isso vale para o cérebro, para o osso, para o músculo, para inúmeros outros órgãos e habilidades. Um osso inerte é mais débil do que um osso ativo. Indivíduos saudáveis que utilizam predominantemente um lado do corpo têm ossatura mais desenvolvida desse lado. Os tenistas, por exemplo, tem um lado do corpo com ossos mais densos, embora os dois lados sejam absolutamente normais.

Levando em conta essas evidências, a pessoa sedentária que chega aos 70, 75 anos, terá os ossos mais debilitados. Portanto, vale a pena interferir nesse setuagenário e modificar as condições de vida dessa pessoa, não mais como prevenção, mas como tratamento de doença instalada. 

PÍLULA DA JUVENTUDE

Drauzio Uma das coisas mais almejadas pelos humanidade é a descoberta de uma pílula que garantisse a juventude eterna e há um número enorme de tratamentos que promete retardar o envelhecimento e prolongar a vida saudável. Nenhum deles, porém, mostrou eficácia cientificamente comprovada. Como você orienta os pacientes nesse sentido e em relação ao uso de micronutrientes como cálcio e vitaminas?

Wilson Jacob Fº – Você citou os dois melhores exemplos. Sabidamente, a absorção de cálcio diminui com a idade. Portanto, a necessidade de ingerir cálcio diariamente é menor no adulto jovem e maior no idoso. Não é que o idoso necessite de mais cálcio: ele absorve menos. Ao fazer o cálculo da ingesta diária de lácteos, verduras e produtos derivados do mar, alimentos ricos nesse mineral, é comum verificar que a quantidade ingerida não supre as necessidades diárias da pessoa com mais idade. Menor disponibilidade de matéria prima, maior tendência a certas doenças. Consequentemente, nesses casos, a reposição ou suplementação de cálcio é a melhor conduta, uma vez que sua falta contribui para a instalação do processo de osteoporose, por exemplo.
Quanto às outras vitaminas, se houver uma dieta adequada, a absorção não costuma ser prejudicada com o avançar da idade. Não há nenhuma evidência de que absorvemos menos vitamina C aos 70 anos do que aos 30 anos. Portanto, a indicação dessa vitamina não é recomendada em nenhuma fase da vida a não ser em casos bastante específicos.

Como se pode notar, sou muito crítico em relação à suplementação de micronutrientes, prática comum na infância em épocas passadas. A regra de quanto mais melhor é absolutamente infundada. O excesso de vitaminas é ruim do ponto de vista clínico (algumas se acumulam no organismo e provocam intoxicações); é ruim do ponto de vista econômico (desvia recursos que poderiam ser aplicados em outras coisas) e do ponto de vista emocional, porque o indivíduo imagina que sua saúde depende de uns comprimidos, o que é mentira. Quantas pessoas acreditam estar bem, porque tomam determinados remédios, na verdade absolutamente inócuos!

No entanto, alguns estudos mostram que algumas vitaminas, principalmente a vitamina E, são adjuvantes no tratamento de certas doenças. Nesse caso, eu as indico para meus pacientes. Afora isso, a indicação de vitaminas não tem sentido nem para os idosos nem para os mais moços.

ADERÊNCIA AO TRATAMENTO

Drauzio – Você acha que é sempre possível melhorar o estado de saúde das pessoas de mais idade?

Wilson Jacob Fº – Tenho certeza disso. Quando analisamos a grande diversidade de fatores que interfere no envelhecimento saudável, verificamos que é impossível estar totalmente em sintonia com todos eles. Existe sempre alguma coisa que pode ser iniciada ou modificada diante do aumento médio da expectativa de vida. Quando me defronto com um homem de 65 anos, avalio as condições de saúde em que se encontra, e constato que não tem nenhum tipo de doença grave, sempre lhe digo que esperamos que viva pelo menos mais 15 anos; ou, quando digo a uma senhora de 70 anos que tem pelo menos mais 18 anos pela frente – dados confirmados pelos censos e projeções epidemiológicas -, eles se motivam para administrar bem o tempo de que ainda dispõem.
Houve um período longo no qual o indivíduo achava que a partir de determinada idade o que viesse era lucro. Entretanto esse ganho em tempo de vida pode não ser lucro; ao contrário, pode ser um grande prejuízo.

Nossa experiência clínica tem mostrado que,na maior parte dos casos, quando convidamos essas pessoas para programarem outra realidade de vida, a aderência ao tratamento tem sido bastante boa. É absolutamente falsa a ideia de que idoso rima com teimoso e não muda seu perfil de comportamento.

Drauzio Você tem essa experiência no contato com as pessoas mais velhas?

Wilson Jacob Fº – Sem dúvida nenhuma. Acho que argumentamos muito mal com a pessoa idosa. Durante muito tempo, nós, os mais jovens, lhe impusemos uma conduta pré-determinada, ou a poupamos de certos encargos, pensando que não tinha condição de assumir uma postura ativa. Por isso, existem ainda tantos cerceamentos e limitações para as pessoas um pouco mais velhas. Os exemplos são gritantes. Demos ao idoso a liberdade de não votar a partir dos 70 anos e ele acabou excluído de um processo seletivo do qual é peça fundamental. Se não vota, deixa de ser importante para o processo político e não se criam leis que o protejam. No momento que retoma a capacidade de manifestar-se pelo voto ou por outros meios sociais, é reinserido na sociedade.

Temos verificado muitas vezes, ao propor a modificação de certos hábitos como parar de fumar, controlar a alimentação e fazer atividade física, se o idoso souber que não estamos pensando no momento presente, mas no futuro que tem diante de si, o argumento é convincente e a aderência inesperada. Depois, é frequente ouvirmos: “Puxa, se soubesse que me sentiria tão bem, já teria incorporado  esses novos hábitos antes’.

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